POR QUE ÍDICHE E NÃO IDISH?
E POR QUE "KH" E NÃO "CH" PARA TRANSLITERAR SOM DE "RR" ?

Genni Blank


Muitos estranham por que escrevo "ídiche" ao invés de "idish" para designar o idioma falado pelos judeus europeus asquenazis há quase mil anos. Argumentam que não se pronuncia o "e" final, no que estou de pleno acordo.

A resposta é bem simples:

É porque assim está escrito oficialmente nos dicionários de língua portuguesa, a menos que se deseje usar sua variante "iídiche", que também é encontrada.

Na verdade, não deveria haver uma letra "e" ao seu final, já que ela não mantém relação com a pronúncia ou a escrita originais. Ressalta-se, portanto, que embora sejamos obrigados a grafar dessa forma, não se pronuncia o "E" final quando estamos nos referindo ao nome do idioma.

O alfabeto ídiche utiliza as letras e sinais gráficos do hebraico, com pequenas modicações.

Transliteração é a substituição das letras de um idioma pelas que fornecem sons semelhantes em outro. Obtemos, assim, uma noção geral tanto de sua pronúncia como "pistas" para sua escrita correta ao se fazer o caminho inverso.

Assim como no hebraico atual, as palavras que fazem parte do denominado "Componente Loshn-Kòydesh do Ídiche", derivadas do hebraico-aramaico, quase não apresentam em sua escrita os sinais indicativos de vogais, os nekùdes (nekudót), o que dificulta sobremaneira a sua leitura por iniciantes que nunca ouviram tais termos.

A transliteração, neste caso, adquire importância fundamental, pois nela são incluídas vogais, cujos sons passam a orientar a forma geral da pronúncia. Sabendo dessa peculiaridade, os melhores dicionários de ídiche costumam apresentar juntamente às palavras oriundas do hebraico-aramaico, também sua transliteração latina.

O YIVO, Yidisher Visnshaftlekher Institut - Institute for Jewish Research, renomada organização fundada em Vilna, Lituânia, já há longo tempo sediada nos E.U.A., vem se dedicando a arquivar e difundir tudo o que se relaciona com o ídiche.

Em 1935, com posterior revisão em 1936, foram promulgadas suas determinações relativas à ortografia do ídiche e à transliteração recomendada em relação à língua inglesa, com estabelecimento da correspondência entre letras e sons em ambos os idiomas.

Por exemplo, nas palavras cujo som em português se assemelha a "rr" (como em carro), a tabela YIVO determina o uso da representação gráfica "kh".
Esses sons são encontrados no hebraico nas letras chet e chaf, denominadas em ídiche respectivamente "khes" e "khof".

No entanto, o YIVO deixou uma brecha para que as transliterações feitas em outros países se baseassem opcionalmente em letras diferentes da tabela que eles criaram para a codificação desta correspondência.

Embora a transliteração pelo YIVO deva ser "kh", algumas publicações no Brasil preferem usar "ch" e em países de língua espanhola está muito disseminado o uso do "j".
Ex: O verbo "fazer" em ídiche translitera-se como "makhn" pela tabela YIVO, "majn" em países como Espanha ou Argentina e podemos encontrar no Brasil publicações que imprimem "machn".

Conclui-se que usar "ch" no Brasil para palavras em ídiche não pode ser considerado propriamente um "erro".

Porém, também é de nossa opinião que, diante da atual realidade que envolve o idioma ídiche, o uso da tabela de transliteração YIVO criada para o inglês é altamente preferível e mesmo fundamental, com vistas à uniformização mundial e sua preservação, primordial tanto para os que se dedicam ao estudo acadêmico como para os simples amantes desta língua.

E na verdade é isso que vem ocorrendo, pois os principais centros mundiais de difusão do ídiche a vem adotando integralmente, ao invés de criarem uma simbologia diferente para cada país.


Quanto a palavras em hebraico, o "ch" está amplamente consagrado (embora, diga-se de passagem, o assunto também não seja unânime, pois há quem prefira transliterar como "h", como "r" ou ainda "rr", nestes dois últimos casos conforme conclusão do trabalho de Saul Kirschbaum e outros professores da USP publicado em 2009).

Em suma, acho preferível uso da simbologia "ch" para transliterar palavras do hebraico e "kh" para palavras em ídiche, tenham sido ou não oriundas do hebraico.

Não deve causar estranheza, portanto, nos referirmos à festa de Chanucá, nome em hebraico, e também à festa de Khanike, nome em ídiche da mesma comemoração. No primeiro caso, "ch" pelo hebraico, no segundo "kh" devido ao ídiche.

Lembrando apenas que se a palavra em questão já fizer parte dos dicionários de língua portuguesa, cessa a liberdade de escolha e ela deve ser grafada conforme lá se encontra, aliás o caso do próprio vocábulo ídiche.

Para os leitores de língua portuguesa, cumpre chamar atenção para o uso dos seguintes símbolos da tabela YIVO:

"kh" deve ser lido como "rr" da palavra "carro",
"sh" tem som de "x" de "xícara",
"g" tem o som que a letra "g" fornece quando está diante de uma consoante ou das letras "a" ou "o" (Ex.: grama, gato, não gelo),
"zh" corresponde a "j" da palavra "janela" ,
"h" não possui equivalente, soando como um "r" quase inaudível ou como o "h" aspirado da palavra inglesa "hard".
"l", que pode fornecer dois sons diferentes, um equivalente ao "l" que conhecemos e que é quase sempre ouvido, e outro semelhante a nosso "lh".

Pelos motivos acima expostos, usei sempre "kh" nas transliterações dos sons "rr" de palavras existentes em ídiche nos três livros que publiquei, Ídiche, Uma Introdução ao Idioma, Literatura e Cultura – Aprendizado Sem Mestre – Volumes I e II, que foram traduções com reorganização da obra de Sheva Zucker, e Pragas e Provérbios, O Humor e a Ironia da Sabedoria Judaica Ídiche, de minha autoria.

Julho/2011